São Jerônimo – Restauração da Escultura

Parceria entre Acervo dos Palácios e IPEN restaura escultura de “São Jerônimo”

Técnica inovadora consegue recuperar imagem e preservar o patrimônio artístico do Palácio do Governo

O governo do Estado de São Paulo, através de uma parceria entre o Acervo dos Palácios, departamento da Secretaria da Casa Civil e o Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares, IPEN-CNEN executam com sucesso processo inovador de recuperação de uma escultura de “São Jerônimo”, em madeira, que estava em processo de deterioração.

O projeto que conta com diversas fases, como o diagnóstico do objeto, a consolidação polimérica, a análise evolutiva das etapas, o restauro e as análises finais, é muito importante para as Ciências do Patrimônio pois pela primeira vez tal tipo de ação foi efetuada com sucesso num objeto artístico-histórico no Brasil.

O processo iniciou-se com uma avaliação do objeto e da escolha pela melhor técnica para recuperá-lo, que levou muitos anos de pesquisa da restauradora-conservadora do Acervo dos Palácios, Adriana Pires.

A escultura São Jerônimo, em madeira policromada, chegou ao laboratório de restauração em estado grave de conservação. A peça apresentava muitas perdas de suporte por ataques intensos de insetos xilófagos, cupim e broca, e estava totalmente desestruturada pelas perdas significativas de material. Existiam lacunas enormes no interior da peça, o que dificultou o trabalho de restauração, já que não era possível alcançar e preencher tão profundamente as áreas atacadas.

Escultura São Jerônimo antes da restauração – vista frontal
Escultura São Jerônimo antes da restauração – detalhe do rosto
Escultura São Jerônimo antes da restauração – vista lateral
Imagem de São Jerônimo antes dos processos de consolidação polimérica e restauração
Escultura São Jerônimo com medidas – 1,0m altura x 0,3m largura
Escultura em madeira de São Jerônimo. Porosidade interna severamente degradada e estrutura fraca

A consolidação polimérica com uso de radiação ionizante foi a técnica perfeita para esse processo de reestruturação do suporte. Foi a partir da consolidação no irradiador de Cobalto 60 que o processo de restauração da peça pôde ser concretizado.

Para poder viabilizar o projeto, foi indispensável o apoio da equipe do IPEN, coordenada por Pablo Vasquez, que participou ativamente da pesquisa e possuía laboratório com equipamentos de ponta para a execução.

A consolidação polimérica é um processo que preenche perdas da escultura com uma resina que solidifica em contato com radiação gama. Para sua utilização num objeto histórico-artístico, os pesquisadores Dr. Pablo Vasquez e Dra. Maria José de Oliveira selecionaram uma resina específica, dentre diversas desenvolvidas, que se adequasse as especificidades necessárias para o procedimento e respeitassem as particularidades da escultura.

Técnico medindo o reator exclusivo para consolidação polimérica
Técnico medindo o reator exclusivo para consolidação polimérica

Confecção do reator exclusivo para o processo de consolidação polimérica, realizado pelo técnico Vagner Fernandes, do IPEN.

Escultura São Jerônimo com medidas – 1,0m altura x 0,3m largura
Scan Hospital Universitário da Universidade de São Paulo (HU/USP)
Escultura São Jerônimo com medidas – 1,0m altura x 0,3m largura
2 RaioX CECON-IPEN

A escultura foi pesada e caracterizada usando técnicas não destrutivas antes e depois do processo de consolidação. Testes tomográficos foram realizados usando um scanner de tomografia computorizada Philips modelo Ingenuity Elite no Hospital Universitário da Universidade de São Paulo (HU/USP). Essa análise foi útil para verificar os poros e fendas dentro da escultura. O CT Scan permitiu a exploração, por meio de imagens de alta resolução da escultura, e reconstrói a imagem em três dimensões.

Cada parte da escultura absorve mais ou menos radiação, dependendo de sua densidade. Finalmente, o feixe de raios X alcança os detectores, produzindo sinais que são transmitidos para um computador com um programa que transforma esses dados em imagens. A escultura também foi analisada por radiografia digital no CECON-IPEN. Essa análise permitiu observar com alta precisão e resolução a espessura do revestimento e as juntas internas de cada parte da escultura.

Detalhe da obra em raio-x, na qual podemos ver as lacunas que serão preenchidas pela resina. Executado pelo setor de radiografia do IPEN.

Escultura São Jerônimo antes da restauração – vista frontal
Escultura São Jerônimo antes da restauração – detalhe do rosto

CECON-IPEN

Escultura São Jerônimo sendo preparada para tomografia no HU/USP
Escultura São Jerônimo sendo preparada para tomografia no HU/USP
Escultura São Jerônimo sendo preparada para tomografia no HU/USP

Durante o processo de consolidação polimérica, a peça foi colocada num pequeno reator, criado sob medida para a escultura, capaz de criar um vácuo que força a entrada da resina nos espaços vazios no interior da obra, que fica submersa na substância, dentro da estrutura assim como a indução de uma pressão positiva. O processo leva aproximadamente 24 horas.

Equipe realizando limpeza da escultura São Jerônimo após irradiação
Primeira etapa de impregnação mostrando a entrada da resina usando vácuo
Equipe realizando limpeza da escultura São Jerônimo após irradiação
Segundo estágio de impregnação da resina

A escultura impregnada foi envolta com tecidos e filmes plásticos para absorver qualquer sangramento da resina e para equilibrar a evaporação. O processo de cura da resina foi realizado na Instalação Multipropósito de Irradiação Gama no IPEN.

O diferencial da técnica é a curagem lenta no irradiador, que permitiu que a resina impregnada na etapa do tambor com vácuo, solidificasse de forma lenta e segura em todas as lacunas da escultura danificada.

Dessa forma, após a consolidação da escultura em madeira, foi possível realizar os processos de restauração da obra.

Escultura São Jerônimo antes da restauração – vista frontal
Irradiação de esculturas na Instalação Multiuso de Irradiação Gama - IPEN
Escultura São Jerônimo antes da restauração – vista frontal
Limpeza de escultura após 2 kGy
Escultura São Jerônimo antes da restauração – vista frontal
A restauradora do Acervo dos Palácios, Adriana Pires e a pesquisadora Maria José de Oliveira durante avaliação da escultura.
Escultura São Jerônimo antes da restauração – vista frontal
São Jerônimo dentro do tomógrafo para realização de exame de imagem, no Museu de Zoologia da USP. Após a consolidação polimérica
Escultura São Jerônimo antes da restauração – vista frontal
Análise físico-química no laboratório Essencis Tecnologies

Processos de restauração no laboratório do Palácio dos Bandeirantes

Escultura São Jerônimo antes da restauração – vista frontal
Escultura São Jerônimo antes da restauração – vista frontal

Procedimento de reintegração cromática realizada pela restauradora Adriana Pires, no laboratório de restauro do Acervo dos Palácios

Escultura São Jerônimo antes da restauração – vista frontal
Procedimento de limpeza
Escultura São Jerônimo antes da restauração – vista frontal
Escultura antes do tratamento e processo de restauro.
Escultura São Jerônimo antes da restauração – vista frontal
Escultura após o tratamento e processo de restauro.

O processo de consolidação melhorou significativamente a integridade estrutural da escultura por meio da redução das porosidades e do aprimoramento das estruturas. capacidade de penetração. A consolidação por radiação gama pode ser justificada se nenhuma técnica alternativa melhor puder salvar a integridade do artefato. Essa foi a última oportunidade para a escultura policromada de madeira de São Jerônimo. Foi notado o aumento do peso do objeto consolidado. (pode dobrar, o que significa que, em alguns casos, há mais resina do que madeira). A escultura recuperou resistência mecânica de alta qualidade. A escultura consolidada possui ótima estabilidade química e baixa interação com o material orgânico original, devido à natureza hidrofóbica da resina. Além disso, esse processo oferece uma espécie de proteção duradoura contra fungos, bactérias e insetos, além de proteção contra a troca de umidade do ambiente. Essas descobertas demonstram a eficácia da metodologia proposta na conservação e preservação de obras de arte em madeira, sendo capaz de dar suporte, firmeza e qualidade ao objeto para retornar à exposição ao público em geral.

Créditos

GOVERNO DO ESTADO DE SÃO PAULO

Governador
Tarcísio Gomes de Freitas
Vice-Governador
Felício Ramuth
Secretário-chefe da Casa Civil
Nerylson Lima da Silva
Secretário Executivo da Casa Civil
Carlos Augusto Gomes Neto
Chefe de Gabinete
Carlos Oliveira
Subsecretário da Casa Civil
Francisco Ronald Rocha Fernandes
Diretora do Departamento de Engenharia e Patrimônio
Siméia Zanini Espírito Santo

Curadora do Acervo Artístico-Cultural dos Palácios do Governo do Estado de São Paulo
Renata Rocco
Restauradora do Acervo Artístico-Cultural dos Palácios do Governo do Estado de São Paulo
Adriana Pires

PESQUISADORES E TECNICOS DO IPEN
Superintendente
Dra Isolda Costa
Pesquisador e coordenador do Irradiador Multipropósito
Dr. Pablo Vásquez
Química responsável
Pesquisadora Dra. Maria José de Oliveira
Técnicos de manutenção
Vagner Fernandes, José Aparecido Nunes, Edmilson Carneiro e Anderson de Assunção
Radiologista do CECON
Felipe Bonito
Técnicos do setor de tomografia do Hospital da USP
Técnicos do setor de tomografia do Museu de zoologia da
USP