O título da exposição imediatamente nos coloca uma dúvida: qual a descoberta? Quem descobriu o quê? É Tarsila que descobre algo? Ou o que ela descobria já era conhecido por outras pessoas? Será que somos nós que descobrimos Tarsila pela primeira vez?
Ao apresentar a coleção de obras de Tarsila do Amaral pertencentes ao Acervo dos Palácios desde o início da década de 1970, muitas delas compradas diretamente da artista, buscamos vê-las com os olhos de quem as vê pela primeira vez. A descoberta de suas cores, formas, gestos e olhares. Tarsila fala através da pintura, sua eloquência não está nas palavras, seus escritos são poucos, mas sua arte povoa o imaginário de todos que alguma vez cruzaram com elas.
Entre São Paulo e Paris, Tarsila formou seu olhar e se tornou pintora. Viu pela primeira vez como o mundo era muito maior do que supunha. Sob o prisma da Paris cosmopolita dos anos 1920, viu também sua infância na fazenda, viu o Brasil como se fosse a primeira vez. Na ânsia de mostrar aquilo que lhe parecia maravilhoso, ou mesmo revolucionário para os padrões da elite cafeeira, que ainda cultivava o gosto do séc. XIX, Tarsila encontrou uma forma de expressar a transformação que via e vivia.
Na dicotomia entre o que foi sua experiência da juventude e o que era esperado dela como mulher de posição social elevada, Tarsila encontra uma terceira via, ser pintora moderna. Apropriando-se de um léxico que buscava ruptura com os padrões da academia, a arte moderna lhe possibilitava uma liberdade nunca imaginada.
Ao navegar pelas obras do Acervo dos Palácios, acompanhamos a jornada de Tarsila desde 1911 com uma de suas primeiras obras, passamos pela experiência da Academie Julian, em Paris, seu contato com os Modernistas paulistas, a fase Pau-Brasil e Antropofágica dos anos 1920, culminando em “Operários”, de 1933, obra simbólica da fase social, chegamos até 1954 com um estudo para o painel comemorativo do IV Centenário da cidade de São Paulo e com sua produção tardia de gravuras nos anos 1960.
Ao reunirmos todas as obras de Tarsila do Amaral do Acervo dos Palácios presenteamos o público paulista com a oportunidade de conhecer ou rever obras de uma das mais celebradas artistas brasileiras. Após longa temporada de empréstimo para exposições internacionais as obras retornam ao Palácio dos Bandeirantes reafirmando o nosso compromisso em divulgar e preservar a arte e cultura nacional.
Rachel Vallego
Curadora do Acervo dos Palácios
