Anita e os Modernistas
“Comprei incontinente uma porção de tintas, e a festa começou.”
Com essa frase, Anita Malfatti recorda o entusiasmo que marcou suas primeiras incursões artísticas na década de 1910. Com formação em Berlim, nos Estados Unidos e em Paris, e participante da Semana de Arte Moderna de 1922, no Teatro Municipal de São Paulo, Anita consolidou-se como uma das principais figuras do modernismo brasileiro.
Se, em um primeiro momento, sua produção apresentou uma linguagem expressionista sem paralelos no contexto nacional, ao longo de sua trajetória a artista dialogou também com outras vertentes, como o chamado “Retorno à Ordem” e a arte naïf, demonstrando constante abertura à experimentação.
A presença de obras emblemáticas de seu percurso no Acervo dos Palácios torna Anita o eixo desta exposição. “A Ventania” (1915) e “Retrato de Lalive” (1917) funcionam como pontos de partida para refletir sobre a pluralidade das linguagens modernas desenvolvidas no país. As repercussões críticas que suscitaram, sua participação em mostras hoje consideradas marcos na historiografia da arte e sua inserção em redes de intercâmbio internacional evidenciam que o modernismo brasileiro se constituiu em diálogo tanto com experiências externas quanto com debates locais. Trata-se, portanto, de um campo múltiplo, que não se limita a uma única definição nem se encerra na ideia de “arte nacional”.
Essa diversidade se amplia nas demais obras reunidas nesta mostra. Paisagens, nus, naturezas-mortas e retratos feitos por artistas que participaram da Semana de 1922 — como Emiliano Di Cavalcanti, Vicente do Rego Monteiro, John Graz e Victor Brecheret — somam-se às produções de Bruno Giorgi, Paulo Rossi Osir, Ismael Nery, Regina Gomide Graz, Flávio de Carvalho, Cícero Dias, Djanira Motta e Silva, Alfredo Volpi, Alberto da Veiga Guignard e Aldo Bonadei. Conjuntamente, esses trabalhos revelam um ambiente de intensa experimentação na primeira metade do século XX, atravessado por referências que vão do “Retorno à Ordem” ao cubismo, ao surrealismo e à art déco.
Ao reunir essas obras no Palácio dos Bandeirantes, buscamos recuperar o sentido de festa evocado por Anita — um sentido expandido para os diversos modernismos que tivemos em nosso país e que continuam em aberto para que possamos revê-los e reinterpretá-los.
Em carta de novembro de 1927, certamente respondendo ao pedido de Mário de Andrade que lhe solicitara para escrever algo que depois publicaria, Anita Malfatti conta-lhe o que procura em sua pintura: