Título da Exposição: Anita e os Modernistas
Foto da artista jovem

Anita Malfatti

Uma das mais significativas artistas do cenário cultural paulista das duas primeiras décadas do século XX foi, sem dúvida, Anita Malfatti, cuja efervescência pictórica transformadora representou o pioneirismo da arte moderna no Brasil.

Foto da obra: Busto de Mulher, de Anita malfatti

Anita Malfatti nasceu em um ambiente artístico, iniciando sua formação artística por influência de sua mãe, Bety Malfatti (1866-1952), que era professora de pintura. Aos 20 anos, estabeleceu-se na Alemanha, justamente nos anos de amadurecimento do expressionismo. Na Academia Imperial de Belas Artes de Berlim, estudou perspectiva, história da arte e desenho, ao mesmo tempo em que entrou em contato com a nova corrente artística nas aulas particulares com o pintor Fritz Burger-Mühlfeld (1867-1927), retratista alemão adepto do divisionismo, técnica de pintura que forma imagens a partir de pequenas machas de cores.

Busto de mulher é deste período de aprendizado da artista em Berlim. Nela, Anita forma a figura por pinceladas, separando-a do fundo geometrizado. A obra apresenta a espontaneidade, o vigor e um prelúdio do vanguardismo da artista que agitariam o cenário cultural paulista no início dos anos 1920.

Outra experiência importante para sua produção foi sua residência artística em Nova Iorque, em 1915 e 1916, quando integrou o grupo da Independent School of Art, em um ambiente de liberdade de criação e experimentação. É dessa fase “A ventania”, em que Anita capturou com pinceladas vigorosas a paisagem litorânea de Monhegan Island, no estado do Maine, obra que se tornaria ícone da Semana de Arte Moderna de 1922, no Teatro Municipal de São Paulo. Adquirida pelo Estado de São Paulo em 1975, é uma das mais emblemáticas da coleção de arte moderna dos Palácios do Governo.

Foto da obra: A Ventania, de Anita malfatti
Foto da obra: Retrato de Lalive, de Anita malfatti

A primeira oportunidade de expor apareceu pelo meio de 1917, com a aproximação de mais um Salão Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro. A pintora enviou para lá um retrato, “Lalive”, provavelmente pintado no início de 1917. A tela, de grandes dimensões, retrata uma figura de mulher – portanto, temática predileta de Anita Malfatti e sem as preocupações nacionalistas do momento. A estrutura da obra e a colocação da figura na tela ainda se assemelham a suas composições norte-americanas. Mas nesta obra a pintora “se contém” em maior proporção do que em “Tropical”, tanto em relação à abstração, às deformações, quanto à cor. Do rosto, - ainda algo sintético em relação ao academismo da época – somem as deformações, assimetrias e mesmo os planos marcados. Com as habituais pinceladas de tinta diluída, há, entretanto, uma deliberada procura de pintura “mais suave”; recorre mesmo a uma cor não usada até então: o tom rosa do vestido, que sobre grande área da tela. Parece que, para finalizar a obram a pintora atendeu às sugestões do meio: pois se a composição do quadro e a estrutura da figura ainda são sucintas, há mais concessões à decoração e à “suavização” – como pinceladas “luminosas” no cabelo e no olhar, como a colocação de “enfeites”, colar no modelo e ramagens no sofá. As mãos e braços continuam os seus.

Foi por essas concessões que a tela “Lalive” foi aceita para figurar na exposição nacional de 1917 [...] A própria pintora guardou uma única referência da imprensa: uma página de caricaturas de Raul, publicada na “Revista da Semana”, “O Salão Cômico”. [...] “Lalive foi comentada com um trocadilho, que se valia do nome da dona das mãos expressionistas “A. MALFATTI/ A mal feita”. p. 63