Título da Exposição: Maria Bonomi - 90 Anos

Obras do Acervo

Maria Bonomi é uma artista que vem se dedicando à escultura e à gravura. Atenta ao trabalho na matriz que dá origem ao desenho, encontrou no entalhe e no sulco que marca a superfície da matriz a força de sua expressão, levando-a aos baixos relevos escultóricos. Pensando a necessidade de trazer a arte ao povo, passou a trabalhar também em grandes dimensões, criando murais para espaços públicos.

Na coleção, duas obras de sua autoria, “Imigração e Substituição” e “O Descobrimento (Navegar é preciso...)” discutem o tema da imigração. A temática se entrelaça com a história da própria artista, que, no início do século XX, emigrou da Itália para São Paulo. As três obras foram produzidas no fim da década de 1990, momento em que sua obra refletia sobre as marcas que os percursos migratórios deixam nas pessoas e na própria terra, e a forma de ocupá-la. Tal carga simbólica também aparece na materialidade das peças, uma vez que ficam explícitas as marcas que produz sobre a superfície dos materiais com que trabalha.

Foto de detalhe da obra 'O Descobrimento (Navegar é preciso...)

Maria Bonomi. Descobrimento (Navegar é preciso...), 2012.
Bronze. Acervo dos Palácios.

obra Imigração e Substituição, 1998. Latão e alumínio.

obra Imigração e Substituição, 1998. Latão e alumínio.

Maria Bonomi. Imigração e Substituição, 1998. Latão e alumínio. Acervo dos Palácios.

"Tento tornar possível a visualização do movimento dos povos, de pessoas singulares, grupos, hordas... Através das marcas deixadas pelas transformações que realizam. No mundo físico e espiritual e simbólico do seu agir, do seu arrastar-se e deixar registros vitais, invasores ou coexistentes do status quo. Alguns marcham, outros correm, são guerreiros ou são nômades. E um belo dia fixam-se num território definitivamente. Anulam-se e renascem, produzem novos contornos, acolhidos ou não, implantam-se, demarcam, circunscrevem, lavram – imigram e fecundam a terra e o espírito. É um ato sagrado, de posse mas também de fusão e de morte. São traços retilíneos ou curvos, compõem-se conforme as resistências, as topologias, conforme o que encontram. O imigrante é também o portador do conhecimento, agente da transformação irrecusável: novos percursos. [...]

Trabalhei a argila que estendi no chão em moldes ajustados como uma verdadeira lavoura. Usei dois instrumentos próprios, só faltava semear e regar. Gravei com as mãos e as ferramentas o enredo de histórias que eu sabia. Pequenas, particulares ou grandes momentos épicos. Fui sulcando o que me contaram.

O X central da placa A (Imigração) é em alto relevo polido: a presença pré-existente a ser conquistada. O primeiro sinal que o homem faz ao chegar, ao se apropriar de algo. A marca central. E começa a fermentar, a garimpar em sua volta. Fora do que está “demarcado”.

No painel B (Substituição), já o X é espaço provado e consumado, em baixo relevo, já resultante das forças que vieram mescladas e dominaram quanto lhes resistia. Ao mesmo tempo o território externo está rejuvenescido pela mixagem, já é futuro..."

Fonte: https://www.mariabonomi.com.br/escritos_decenio_1990.asp

Obra Maria Bonomi. Artigo XI, 1991. Litografia sobre papel. Acervo dos Palácios.

Artigo 11

1.Toda a pessoa acusada de um ato delituoso presume-se inocente até que a sua culpabilidade fique legalmente provada no decurso de um processo público em que todas as garantias necessárias de defesa lhe sejam asseguradas.

2.Ninguém será condenado por ações ou omissões que, no momento da sua prática, não constituíam ato delituoso à face do direito interno ou internacional. Do mesmo modo, não será infligida pena mais grave do que a que era aplicável no momento em que o ato delituoso foi cometido.

Maria Bonomi. Artigo XI, 1991. Litografia sobre papel. Acervo dos Palácios.

Nesta obra abstrata, Bonomi buscou representar a importância deste artigo na responsabilização de nossos atos e omissões, como norteador para uma conduta ética do homem. A artista cria sua gravura incluindo número do artigo, XI, em amarelo, ao fundo da obra.

Maria Bonomi. No Hiroshima! 1995. Série 50 anos de Hiroshima.
Litografia sobre papel. Acervo dos Palácios.